Anna Bomtempo Dermatologista
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Medicina

Canetas emagrecedoras podem causar queda de cabelo?

Entenda o estudo recente que associa o uso de canetas emagrecedoras à queda de cabelo e saiba como a dermatologia cuida da saúde dos fios nesse processo.

Por Dra. Anna Bomtempo5 min de leitura

A resposta direta para essa dúvida é sim, os medicamentos utilizados para a perda de peso podem ter relação com a perda capilar. O processo acelerado de redução de medidas frequentemente desencadeia uma condição conhecida como eflúvio telógeno, resultando em uma queda temporária e volumosa dos fios.

Essa questão ganhou evidência na comunidade médica e na imprensa após a apresentação de um levantamento recente no congresso da Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia (EADV), realizado no início de outubro de 2026. A pesquisa associou o uso de medicamentos da classe GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, a alterações notáveis nos cabelos e nas unhas dos pacientes.

Para quem busca cuidar da pele e dos anexos cutâneos com informação baseada em ciência, é fundamental compreender o que os dados realmente mostram. O estudo multinacional envolveu 1.904 participantes do Brasil, França, Estados Unidos e México. Desse total, 575 eram usuários das canetas e 1.329 formavam um grupo de controle composto por pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2 que nunca haviam utilizado a medicação. Os resultados revelaram que 50,4% dos usuários das canetas relataram queda de cabelo incomum, uma taxa superior aos 33,5% observados nas pessoas que não utilizavam a medicação. No entanto, é importante interpretar esses números com cautela. Trata-se de um estudo observacional, o que significa que ele aponta uma associação clara, mas não prova uma relação direta de causa e efeito. O próprio processo de emagrecimento e o estado de saúde prévio dos pacientes são fatores que influenciam fortemente esses resultados.

A relação entre queda de cabelo e emagrecimento

A perda capilar associada à redução de peso geralmente se manifesta na forma de eflúvio telógeno. De acordo com uma publicação de 2022 da prefeitura.sp.gov.br (Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo), o eflúvio telógeno é uma condição caracterizada pela queda de cabelo volumosa e temporária. Ele ocorre quando o organismo passa por eventos que geram estresse agudo, como infecções, alterações hormonais, cirurgias ou perda de peso rápida.

O mecanismo por trás dessa reação é uma resposta de autopreservação do corpo. A perda de peso acelerada funciona como um choque metabólico. A diminuição intensa na ingestão de alimentos frequentemente leva a uma deficiência de nutrientes essenciais para a formação capilar, como proteínas, ferro e zinco. Diante da falta de energia e de substrato nutricional, o organismo prioriza o funcionamento dos órgãos vitais e interrompe o ciclo de tecidos de crescimento rápido.

Como consequência desse redirecionamento de energia, os folículos capilares são forçados a entrar precocemente na fase de repouso, conhecida como fase telógena. Semanas ou meses após o início do emagrecimento, esses fios que entraram em repouso começam a se desprender do couro cabeludo em grande volume, evidenciando a relação íntima entre a nutrição e a vitalidade capilar.

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A inflamação do couro cabeludo

Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores na EADV foi a presença de inflamação no couro cabeludo. O levantamento apontou que sintomas como vermelhidão, coceira ou descamação foram cerca de três vezes mais frequentes entre os usuários das canetas emagrecedoras.

Esse achado é clinicamente relevante porque indica que a perda capilar nesses pacientes pode não ser apenas um eflúvio telógeno clássico causado pela restrição calórica. A presença de um quadro inflamatório exige uma avaliação atenta, pois a inflamação piora a qualidade do fio e acelera a queda, demandando uma abordagem terapêutica específica para acalmar a pele da região e restaurar o ambiente folicular.

O papel da dermatologia na preservação da saúde capilar

A principal recomendação dos autores do estudo é que os pacientes não suspendam o uso da medicação para emagrecer por iniciativa própria. As alterações nos cabelos e nas unhas, embora incômodas, costumam ser benignas e passíveis de manejo clínico. O acompanhamento profissional é o caminho para atravessar essa fase de transição corporal mantendo a saúde dos anexos cutâneos.

A avaliação dermatológica permite investigar e corrigir deficiências de vitaminas e minerais, além de tratar condições prévias que o paciente já possuía e que podem ter sido agravadas pelo estresse metabólico. Os pesquisadores notaram que, ao ajustar os fatores nutricionais e focar na saúde da pele, a intensidade das reações adversas diminui consideravelmente.

Esse cuidado integrado vai ao encontro da filosofia da beleza silenciosa, que se baseia na premissa de que a estética elegante e natural depende do equilíbrio do organismo como um todo. Cuidar da pele, dos cabelos e das unhas durante o uso de medicações sistêmicas requer atenção aos detalhes e uma conduta médica individualizada, avaliando a necessidade de todos os tratamentos de suporte disponíveis na prática clínica.

Se você está em processo de emagrecimento, fique atenta aos sinais que o seu corpo emite. Mudanças na textura das unhas, surgimento de manchas, descolamentos ou aumento no volume de fios que caem no banho merecem atenção. A dermatologia atua de forma preventiva e terapêutica para preservar a vitalidade dos seus cabelos e unhas, contribuindo para que o seu processo de saúde e bem-estar seja completo.

Perguntas frequentes

O remédio para emagrecer é o causador direto da queda de cabelo?

O estudo recente aponta uma associação, mas não comprova uma relação direta de causa e efeito. A queda de cabelo está intimamente ligada ao estresse metabólico e à restrição de nutrientes que ocorrem durante a perda de peso rápida.

Devo parar de usar a caneta emagrecedora se meu cabelo começar a cair?

A recomendação dos pesquisadores é não interromper o tratamento por conta própria.

O que é o eflúvio telógeno?

É uma condição caracterizada pela queda de cabelo volumosa e temporária. Ela é desencadeada por eventos que geram estresse agudo no organismo, forçando os folículos capilares a entrarem precocemente na fase de repouso e, posteriormente, caírem.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada pele responde de um jeito, e a conduta adequada depende de avaliação individual.

Dra. Anna Paula Bomtempo, médica dermatologista. CRM-SP 177.888, RQE 85.823.

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